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Who the fuck is Matthias Wähner?


 Samy escreve para a coluna Sem Título



A definição mais aceita do termo “fotojornalismo” costuma ser “registro fotográfico feito pelo jornalista para ilustrar, comprovar ou dar veracidade a textos de reportagens”. Contudo, a definição acima poderia muito bem ser uma pergunta. Afinal, o fotojornalismo pode mesmo ser definido dessa forma? Não para Matthias Wähner, artista alemão que curte uma traquinagem. Digo, artista alemão nascido em Berlim, em 1953, formado em Arte, História da Arte, Filosofia e Pedagogia da Arte pela Ludwig-Maximilians-Universität München. As obras de Matthias – tanto a fotográfica quanto a audiovisual e a acadêmica - são uma forma irônica de criticar o fotojornalismo. Seu trabalho mais conhecido é a série Mann ohne Eigenschaften (1994). Esse título, traduzido para o português como O homem sem qualidades, é a apropriação do nome de um livro de Robert Musil. Em tal série, Wähner insere sua figura, por meio da manipulação digital, em fotografias históricas do século XX as quais foram divulgadas na mídia.
Um exemplo é o retrato da Família Real no dia do funeral de Wallis, Duquesa de Windsor, o qual ocorreu na capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, em 29 de abril de 1986. Na fotografia, vemos à esquerda, Príncipe Charles e Princesa Diana; no meio, Matthias; à direita, Rainha Elizabeth e Philip, Duque de Edimburgo. Tal imagem, à primeira vista, não causa nenhum tipo de estranhamento, sobretudo porque Wähner está vestido a caráter – traje, aliás, que ele usa em todas as suas montagens – e não se percebe nenhum erro de proporção.
O artista também se insere ao lado de outras personalidades famosas e ironiza diferentes situações:
Matthias finge ser o quinto integrante dos Beatles;

Observa, à esquerda, o corpo de Che Guevara, morto em 1967;

Passeia de mãos dadas com Brigitte Bardot;

Ajoelha-se ao lado de Willy Brandt, diante do Memorial aos Heróis do Gueto de Varsóvia, em 1970;

Aparece junto com o astronauta Neil Armstrong;

Abana para a multidão junto com John F. Kennedy;

E vejam que maravilha, posa para foto ao lado de Superman.

Se antes os dirigentes soviéticos faziam desaparecer presenças incômodas das fotografias, Wähner faz o oposto: ele é uma espécie de intruso banal que participa da cena, que aparece onde não foi chamado. O trabalho de Matthias é uma crítica à mídia e à credibilidade que lhe é concedida. Além da presença do elemento irônico, a série Mann ohne Eigenschaften visa criar um jogo entre o real e o ficcional.
Joan Fontcuberta publicou, em 1997, o livro El beso de Judas. Fotografía y Verdad, no qual ele afirma que a fotografia, sem exceção, é uma ficção que se apresenta como verdadeira. É necessário que o observador perceba que, ao contrário do que diz o senso comum, a fotografia mente sempre, mente por instinto e mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa. É exatamente isso que Wähner demonstra em seu trabalho. As fotografias em tons de preto e branco complementam o artifício documental que valoriza mais a função temporal da imagem. As imagens ironizam a pretensão documental da fotografia. Através desse jogo manipulativo, questões referentes à verdade e à alteração de fotografias documentais em prol da arte são levantadas.

E para quem pensa que a manipulação fotográfica se disseminou somente após a era digital, assista ao curta A lenda do fotógrafo oficial, presente no filme Amintiri din epoca de aur (Contos da Era Dourada, 2009).
* Encontrei somente uma parte legendada em inglês no Vimeo ou inteiro e sem legendas no Youtube.

sábado, 7 de setembro de 2013
Postado por Mundo Raimundo

Antes de cometer suicídio, leia Enrique Vila-Matas

Samy escreve para a coluna Sem Título

Afinal, a vida vale ou não vale a pena ser vivida?  Essa é a questão central – e continuamente revisitada - da filosofia de Albert Camus. Em um período turbulento em decorrência da Segunda Guerra Mundial, tal autor se propôs a definir o absurdo. No livro O mito de Sísifo (1942), afirmou que um homem que se mata acaba por admitir que foi superado pela vida ou que não a entendeu, sobretudo porque em um mundo que não pode ser explicado, o homem tende a se sentir como um estrangeiro. O sentimento do absurdo a respeito da vida foi definido por ele como “a estranheza do mundo; o mal estar perante a crueldade do homem; a incalculável queda diante da imagem daquilo que somos; a náusea”.
Cito Camus por um motivo específico: pretendo falar de um livro de Enrique Vila-Matas. À primeira vista, para quem conhece o trabalho desse escritor catalão, tal aproximação pode soar estranha. Todavia, Suicídios exemplares (1991) é um livro de contos com foco em dois temas: vida e negação. As 12 histórias escritas por Vila-Matas giram em torno da possibilidade do suicídio. Fala-se em possibilidade porque nenhuma das personagens chega a executar tal ato. A narrativa é entremeada por uma sutil ironia e por uma leve amargura existencialista. O autor não enfatiza a morte; pelo contrário, ele ressalta como suas personagens sobrevivem dia após dia. Bem como Camus, Vila-Matas não vê o suicídio como uma resposta para o absurdo da vida. Reafirma, em cada um de seus contos, que se deve viver e, por conseguinte, revoltar-se.
O acaso, nessa obra vila-matasiana, também é tema presente. No conto “O colecionador de tempestades”, a personagem, obcecada pelo suicídio, programa-o de forma engenhosa e perfeccionista, mas minutos antes de executar sua vontade, imprevistamente, morre em conseqüência de problemas cardíacos. Neste momento, a ironia, o ridículo e o absurdo se ligam intimamente. Em “A noite da íris negra”, um casal viaja a uma ilha com um extenso histórico de suicídios. No decorrer da narrativa, descobrem a existência de uma sociedade secreta cujos membros compactuam com a ideia de fazer da morte uma obra independente do acaso. No conto “Rosa Schwazer volta à vida”, a personagem, descontente com sua existência, percebe e sente o absurdo, tornando-se obstinada pela ideia de se matar: “cometer haraquiri, envenenar-se, atirar-se na frente de um carro”. Entretanto, acaba sempre protelando o inevitável. “Em busca do parceiro eletrizante” narra a história de um ator infame que sai à procura de um parceiro para formar uma dupla cômica e, dessa forma, voltar a fazer sucesso. Porém, descobre que seu parceiro ideal morreu. Assim, visando formar a dupla no além, pensa em se matar. 
Esses contos remetem às reflexões de Friedrich Nietzsche. Para tal autor, não existindo nenhum direito que permita a um homem tirar a morte de outro, o pensamento a respeito do suicídio se torna um consolo, pois para Nietzsche, é pertinente morrer orgulhosamente quando não é mais possível viver orgulhosamente. Ou seja, por amor à vida deveria se morrer livre e conscientemente, sem depender do acaso.
Nas demais histórias, todas as personagens são facilmente comparáveis às pessoas do nosso cotidiano. Todos vivem em meio ao absurdo e se deixam possuir, uma hora ou outra, pela fantasia de se matar, seja atraindo raios, tomando estricnina, jogando-se no vazio ou definhando por saudade. Ainda assim, Suicídios exemplares é um livro que exalta a vida e o suicídio não é visto como um signo de derrota, mas como uma possibilidade de controle do homem sobre a sua própria existência.






sábado, 17 de agosto de 2013
Postado por Mundo Raimundo

10 filmes contemporâneos e simples, mas que valem a pena

 Samy escreve para a coluna Sem Título

    Os filmes que pretendo indicar são simples, ou seja, neles não ocorrem explosões, tiroteios e tampouco há sangue sendo jorrado para todos os lados (com exceção do primeiro da lista, que veio para quebrar a regra). Não que eu desgoste dessas coisas, pelo contrário, a meu ver não há nada melhor do que cinema western. No entanto, prefiro quando a tais situações estão associados bons diálogos. Claro que não estou aqui afirmando que vejo necessidade em colocar Juliette Binoche conversando do começo ao fim do filme com um ator qualquer, como fez Abbas Kiarostami em Cópia Fiel. Nem 08, nem 80. O que quero dizer é: paciência, nem todos os diretores são como Sam Peckinpah! Todavia, é possível se conformar rapidamente, pois muitos contemporâneos estão trabalhando bem. Encontrei por acaso a maioria dos filmes abaixo (apenas dois foram recomendados por amigos) e penso que eles têm uma característica em comum: infelizmente, passariam despercebidos pela maioria se não fossem indicados por alguém.

1.Dear Wendy (2004), Thomas Vinterberg
“Querida Wendy” narra a história de um jovem que compra, por acaso, uma arma de fogo. Assim que ele descobre que a pistola não é de brinquedo, convence outros garotos (os quais também são vítimas de exclusão social) a fundar um clube secreto baseado nos princípios do pacifismo e da posse de armas. Contudo, seus membros se deparam com uma situação limite e acabam optando por quebrar as regras do clube. O roteiro é de Lars von Trier. Thomas Vinterberg é, em minha opinião, ao lado de Michael Haneke, um dos melhores diretores da contemporaneidade. Além disso, o filme ainda conta com uma ótima trilha sonora e tem como música tema “Time of the season”, do The Zombies.
Assistir online:

2. El Perro (2004), Carlos Sorin
“O Cachorro” é um filme interpretado por não atores. Juan Villegas é um homem que trabalhou por 20 anos em um posto de gasolina. Após sua demissão, tenta sobreviver confeccionando facas com cabos artesanais, mas não obtém sucesso. Ele realiza um pequeno trabalho para uma senhora de idade e ela o paga com um cachorro de raça. A partir desse momento, a vida de Juan muda. Os filmes argentinos e uruguaios são, na maioria das vezes, realmente bons. Esse é um deles. O ponto forte é o olhar (literalmente) de Juan Villegas. 
Assistir online: 

3.Shortbus (2006), John Cameron Mitchell
Nova York, pós 11 de setembro de 2001, esse é o panorama no qual se desenvolve a narrativa fílmica de “Shortbus”. As personagens que povoam o enredo, ainda traumatizadas pelo ataque terrorista que marcou a história daquela cidade, encontram-se em uma espécie de clube underground onde podem aliviar as suas neuroses conversando, ouvindo músicas, assistindo a filmes, bebendo, realizando desejos sexuais, etc. O clube, o qual possui o nome homônimo ao título do filme, é gerenciado pela Drag Queen Justin Bond (esta personagem representa a si mesma). Ela diz que no local tudo é permitido, “It's just like the 60's. Only with less hope!”. O ambiente funciona como um subterfúgio do mundo real, onde não é necessário dissimular desejos.
Assistir online:

4.Transylvania (2006), Tony Gatlif
Zingarina é uma italiana que se apaixona por um jovem músico de rua na França. Ele a engravida e a abandona. Zingarina viaja com sua amiga até a Transilvânia à procura do rapaz, que ao encontrá-la, termina o relacionamento. Sem querer voltar para casa, a moça foge de sua amiga e esbarra em Tchangalo, um mercador de ascendência turca, com quem começa a se relacionar. Esse é um belo e exótico road-movie, que mostra um pouco da cultura cigana, das tradições pagãs, etc. 
Assistir online (sem legendas): http://www.youtube.com/watch?v=qKqGv85Khf0

5.O' Horten (2007), Bent Hamer
Do mesmo diretor de Factotum (filme sobre o alter ego de Charles Bukowski) “Caro Sr. Horten” narra a história de um metódico e tímido maquinista que está prestes e a se aposentar. No seu último dia de trabalho, Odd Horten acaba passando por uma situação inesperada, que o leva a repensar sua vida. Focado em questões como a velhice e a solidão, esse é um dos poucos filmes do diretor norueguês Bent Hamer disponíveis no Brasil. “Caro Sr. Horten” e o filme logo abaixo são, em minha opinião, os melhores da lista.

6.Love Comes Lately (2007), Jan Schütte
O roteiro de “O Amor Chega Tarde” é baseado nos contos do escritor polonês Isaac Bashevis Singer. No filme, Max Kohn é um escritor austríaco judeu de 80 anos de idade que vive em Nova York. Autor bem sucedido, acredita que a forma certa de escrever seja, mesmo tendo acesso às novas tecnologias, com sua antiga máquina de escrever. Convidado para dar uma palestra nas proximidades de Hanover, Max começa a editar sua mais recente história, perdendo-se entre realidade e ficção.

7.Patrick 1,5 (2008), Ella Lemhagen
“Patrick, Idade 1,5” é um filme sueco baseado em uma peça teatral de Michael Druker. Goran e Sven são um casal gay que luta para conseguir adotar uma criança. Quando eles finalmente conseguem a liberação, assinam os papéis e ficam à espera da chegada de Patrick. Entretanto, houve um erro de digitação na idade do menino e eles recebem em casa um adolescente homofóbico e com antecedentes criminais. Em meio a diversos conflitos, eles são obrigados a conviver na mesma casa.


 8.Avaze gonjeshk-ha (2008), Majid Majidi
“A canção dos pardais” trata da história de Karim, um homem que trabalha em uma fazenda de avestruzes. Quando um dos animais foge, Karim é demitido. Passando por dificuldades financeiras e sem poder comprar um aparelho auditivo para a filha, ele começa a trabalhar (por acaso) como motorista de mototaxi. “A canção dos pardais” desmonta completamente a ideia de que filmes iranianos são cansativos e/ou entediantes.

9. The Good Heart (2009), Dagur Kári
“O Bom Coração” conta a história de Jacques e de Lucas, quando ambos se conhecem em um quarto de hospital. O primeiro é dono de um bar e teve seu quinto ataque cardíaco. O segundo, por sua vez, é um sem-teto que falhou ao tentar suicídio. Visando manter seu legado vivo, Jacques faz de Lucas seu herdeiro, que rapidamente aprende as regras do bar: sem novos clientes, sem confraternizações e sem mulheres. Entretanto, as coisas mudam com a chegada da jovem April. Esse filme é excelente (o final, sobretudo). Preciso acrescentar: eu acho o trabalho de Paul Dano admirável!

10.Dreiviertelmond (2011), Christian Zübert
“Three Quarter Moon” (ainda sem título em português) é um filme que fala sobre xenofobia. Hartmut Mackowiak é um senhor de idade teimoso e mal-humorado que trabalha como taxista. Sua personalidade arruinou seu casamento de 35 anos, além de prejudicar seu relacionamento com a filha adulta. Certo dia, Hartmut pega no aeroporto duas passageiras turcas, mãe e filha. Elas vão visitar a avó da menina, que ficará um tempo morando na casa dela enquanto a mãe viaja. A avó, sozinha com a criança, acaba tendo um acidente vascular cerebral e Hayat, sem falar uma palavra sequer em alemão, reencontra o taxista, que passa a tomar conta dela, até conseguir entrar em contato com a mãe da menina. 



sábado, 27 de julho de 2013
Postado por Mundo Raimundo

Post de número 1 com nada mais, nada menos que 1.292 caracteres

Samy escreve para a coluna Sem Título
E eu fui tentando sair porta afora. O que mais eu poderia fazer? Eu era uma criança niilista e nervosa. Não via perspectiva em ter uma vida brilhante naquela casa. Coloquei dentro de uma fronha o que achava que era necessário, amarrei a fronha em um pedaço de madeira, apoiei o pedaço de madeira no ombro esquerdo e atravessei a sala com convicção. Ninguém teria notado minha disposição em fugir e eu teria obtido sucesso, caso não tivesse pedido a ajuda de minha mãe para abrir a porta chaveada.
- Aonde você pensa que vai?
- Não te parece óbvio que estou abandonando este lar?
Meu grande plano consistia no seguinte: eu viajaria até Santa Maria; trabalharia em uma plantação batatas; aprenderia a falar eslovaco de trás para frente só por diversão; e lutaria contra uma organização que existia na cidade: a KKKKKK (um grupo pertencente à Ku Klux Klan que costumava gargalhar à toa).
Todavia, tal tentativa foi frustrada. Minha mãe pegou a bagagem de viagem e espalhou meus pertences sobre o sofá cama: um perfume barato, desses comprados por catálogos vendidos por professoras prestes a se aposentar; um boneco do Comandos em Ação, o qual me protegeria, caso tivesse uma guerra lá fora; borrachas coloridas para prender o cabelo; e papel para desenho. Fui ridicularizada.
Desde esse fatídico dia, parei de dizer boa tarde para a vizinha do segundo andar e passei a ter o hábito de tentar caminhar a um passo de distância de mim mesma. Assim sendo, devo admitir que não é apenas impressão que dia sim, dia também sim, acordo achando que estou sendo perseguida.
domingo, 14 de julho de 2013
Postado por Mundo Raimundo

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