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Fim do mundo
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!
“Mas nossos
filhos serão mutantes Queria tudo como era antes O céu nunca mais vai brilhar
Aqui dentro do abrigo nuclear” - Replicantes
Então é isso , os homens vão se despedindo
lentamente da mãe terra e cedendo o domínio às baratas. Foi assim que
aconteceu. Por ironia do destino ou justiça poética os primeiros a serem
expulsos foram os filhos da grande águia da América do Norte. Foi divertido ver
pela TV a grande maçã ser comida pelas baratas... las cucarachas... (maçã,
baratas, entenderam a brincadeira? Não? É, eu sei que não teve graça. Mas como
diz o ditado, pimenta no c... alheio é refresco). Como eu dia dizendo, ‘tava
divertido. Ver pela TV os gringos apavorados, correndo feito baratas tontas
pelas ruas (baratas tontas... sacaram? É não teve graça de novo, sorry) e as
imagens do metrô? Lembram das imagens do metrô? Quem poderia esquecer aquela
mulher obesa sapateando sobre milhares de baratas pra defender sua coca-cola?!
Bem, eu nunca pensei que a coisa fosse adiante, mas foi. Quando apareceram as
imagens de Paris invadida pelas baratas eu chorei. Tá, sentimentalismo idiota,
pode ser. Mas pus Edit Piaf na vitrola e chorei. Igualité, Fraternité, Egalité,
et baraté. Merdé. Quando chegaram as primeiras imagens do Louvre coberto de
baratas... tive pena do cinegrafista que, desesperado ia gritando a cada obra coberta
pelas baratas. Aquelas filhas da puta, foram direto até a Vitória de Samotrácia...
Tomei os últimos 4 diazepans da caixa e continuei olhando, hipnotizada,
desesperada... depois foi a Monalisa. Quando as baratas cobriram a Monalisa eu
entendi tudo. Acabou. O último bastião do Ocidente, a obra prima de Da Vinci –
o cabra que inaugura a modernidade, que rende bolsa pra tanto mané defender
tese na Zoropa...
Eu soube ali que não teríamos escapatória.
Desliguei a TV e fui pra rua. De coturnos, que eu não sou trouxa, né? Aí o
bicho pegou. Todo mundo fugindo pra beira da praia, acreditavam que no mar elas
não sobreviveriam.... O que ninguém avisou pro povo é que no esgoto que é o
litoral do Rio Grande do Sul só barata mesmo pra sobreviver e se sentir bem.
Elas tomaram conta de Imbé, Atlântida, Torres, Tramandaí,... soube mais tarde
que foi muito engraçado, as madames de Atlântida se bronzeando entre as
baratas, houve algumas que morreram ali mesmo, síncope nervosa, chilique,
piripaque. Ataque de pelanca! E eu? Bom, nessa altura do campeonato o caos já
tinha se instalado... entrei num supermercado, de coturno, camuflagem e iniciei
um saque. Sim, fui eu que comecei o grande saque. Se me orgulho disso? Não sei
ao certo, mas eu sabia de uma coisa: Se eu vou morrer que seja esperneando.
Entrei no supermercado, baixei toda a prateleira de inseticidas mais comidas
enlatadas e bebidas destiladas.... SIM, EU TINHA UM PLANO! Saí dali e fui até
um depósito de gás, deixando atrás de mim uma nuvem de donas de casa
insandecidas, brigando por toalhas de banho e sacos de arroz dentro do
supermercado. Esvaziei 2 garrafas de uísque... (hum, nada com um 12 anos... e
cawboy, que uísque com gelo pra mim é xixi) Enchi de gasolina ah, há quanto
tempo eu não fazia um coquetel molotov... saudades dos loucos anos 80...
entretanto, agora não se tratava de piquete, era sobrevivência mesmo. Com ou
sem pregos? Hum, uns preguinhos não fazem mal dentro de um coquetel molotov...
sempre cai bem, um preguinho tá pro molotv como a cereja tá pro Martini...
Hehehe. Catei mais garrafas e em menos de 1 hora tinha 20 coquetéis molotvs...
Fui obrigada a esvaziar mais uma garrafa – desta vez de vodca – pra ter mais
coquetel... E aí o resto vocês viram pela TV... a sucessão de postos Esso que
foram pelos ares... gente, era coisa muito linda de se ver! Cablum. Ao todo
foram 15... aí me pegaram... deviam me agradecer, me condecorar, me oferecer
dinheiro e mancebos bronzeados em prova de gratidão... o fogo purifica, se algum daqueles idiotas se
desse ao trabalho de verificar veriam que no perímetro das explosões não havia
nenhuma puta barata. Nenhuma barata puta. Não, os imbecis de farda não se deram
ao trabalho de verificar, me algemaram e me jogaram num camburão... putz e eles
me tiraram os isqueiros e os fósforos, me deixaram sem fogo. Filhos da puta. Aí
veio toda aquela palhaçada... jornalistas, psiquiatra, sociólogo, âncora de
telejornal... cada um falando uma besteira maior que a outra. Todos cobertos de
baratas. Vocês não viram?
Um causo gauchesco numa noite de novembro
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!
Estávamos todos acampados. Quanto tempo de peleia já? Quincas
até barba na cara já tinha, Domingos estava magro, Eleutério puxando de uma
perna por conta de uma pranchada bem dada por um imperial. Compadre Leôncio
estranhou, quando deram ordem pra entrega das cartucheira. Ala pucha, então vão
deixar soldado com arma mas sem munição? De onde partiu essa ideia mal
arrumada? Ninguém respondeu. Levaram as cartucheiras, algumas armas também. Ali
permanecemos, em campo aberto, sonhando com a liberdade prometida, curando a
saudade das mulheres e filhos com alguma cachaça. Tudo parecia normal, não
fosse compadre Leôncio olhando pra mim por baixo do chapéu, aquele olhar dele
encafifado.
- Vem cá, guri, me diz: quanto tempo tu tá na peleia?
- Cheguei não sei faz quanto tempo, acho que no tempo de duas
ou três invernadas...
- E tu já é homem?
- ora... que pergunta, besta, sou homem...
- tô perguntando se tu já te deitou com mulher, piá.
Baixei a cabeça. Compadre Leôncio tinha adivinhado. Saí
novinho da fazenda para lutar com os farrapos. Tentar a liberdade pra mim e
pras minhas irmãs... Não, eu ainda não havia me deitado com mulher.
- Pues, guri, não é vergonha. Tu é guri bom, guri forte, há
de arranjar pra ti uma que se encante. Pega
esse cavalo e galopa pra bem longe daqui. AGORA.
Compadre Leôncio não era meu compadre e nem tinha batizado
filho de nenhum homem ali, mas todos o chamavam por compadre. Bom cavalariano,
excelente ferreiro e conhecedor de todos os caminhos era compadre Leôncio
responsável por ter salvado algumas vidas do nosso destacamento. Cada um
contava uma história a respeito dele. Uns diziam que tinha matado a mulher e os
filhos num acesso de loucura, outros diziam que a mulher tinha sido morta pela
sinhá no tronco, outros diziam que ele tinha matado meia dúzia de índio numa
escaramuça, mas o certo é que todos gostavam de compadre Leôncio, homem
honrado, justo, cumpridor da palavra. Não era dado a demonstrações de
sentimento. Ser chamado em particular por compadre Leôncio era quase uma
distinção. Mas aquela ordem era uma ordem pra deserção. Era uma ordem pra
desonrar meu juramento de lanceiro, pra renegar minha condição de homem, de
guerreiro... era pra renunciar à liberdade. Eu não entendi, também não ousei
retrucar, mas compadre Leôncio parecia ler na alma das pessoas. Ali, naquela
noite escura ele leu a cara de um guri assustado.
- É isso, guri, tu vai desertar pra salvá tua vida. Quem fica
aqui essa noite vai morrer e tu, guri,
eu lembro como se fosse ontem, eu pessoalmente te tirei debaixo do braço da tua
irmã Rosa e prometi pra ela que te devolvia inteiro. Sou homem de palavra.
Agora vai.
Se por um lado desertar era uma desonra, por outro lado
também não ousava contrariar o compadre Leôncio, aquele general sem divisas,
aquele estrategista sem estudo, aquele irmão de todos nós nas escaramuças.
(Talvez essa história tenha
acontecido, talvez não, talvez, talvez... nunca contaram a História dos homens
de Porongos)
O Zé e a carne de pescoço
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!
Moravam numa mesma casa 5 manés: o Rafa, o Marcelo, o Rodrigo, o
Alexandre e o Zé.
Um belo dia, Rafa, Marcelo, Rodrigo e Alexandre chegaram do trabalho e
resolveram fazer uma galinhada. chegou mais gente, todo mundo comeu e se
fartou... e alguém lembrou do Zé.
Deixaram um pouquinho pro Zé, mas, nesse pouquinho, só tinha carne de
pescoço.
Ao chegar, exausto e esfomeado, Zé comeu toda a carne de pescoço que havia. E
comia com volúpia.
- Tem mais?
- Tem mais não, véi, ‘cabô!
Passaram-se algumas semanas, nova galinhada... e a história se repetiu: pro Zé,
só a carne de pescoço restou.
Novamente, ao chegar, exaurido e faminto, Zé comeu toda a carne de pescoço que
lhe fora destinada. Elogiou o tempero.
- Só isso?
- É, ‘cabô, tem mais não, véi!
Dali um mês, Zé conseguiu uma folga e calhou de ser, justamente, no dia da tal
galinhada. Então Zé soube que na galinhada ia coxinha, peito, sobrecoxa,
asinha... e carne de pescoço, naturalmente.
Quando Zé serviu no prato duas sobrecoxas...
- Pô, a gente até trouxe mais carne de pescoço pra ti!
- Carne de pescoço?
- É, tu não gosta de carne de pescoço?
- Não, só comi porque era o que tinha e eu 'tava com fome.
(Essa história se aplica ao conteúdo da TV aberta, ao que você vê nas vitrines,
ao que toca nas rádios.... e ao que mais você julgar adequado. A história não é
minha, ouvi de não sei quem, num sei onde, não sei
quando...)
ONDE ESTÁ O AMARILDO, PORRA?
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!
ONDE ESTÁ O AMARILDO? CADÊ O AMARILDO? São perguntas que estão povoando as redes
sociais nas últimas semanas. Não sei quem escreveu que o caso Amarildo se
conecta ao caso Rubens Paiva por que ambos entraram vivos em um estabelecimento
das forças de segurança do Estado (Rubens Paiva no DOPS e Amarildo na UPP) e
nunca mais foram vistos... mas Rubens Paiva, parlamentar, homem público foi vítima de um Estado de exceção enquanto
Amarildo, preto, pobre, paisano, foi vítima de um Estado onde a exceção é a
regra. Embora Amarildo seja uma exceção. Quantos outros entraram e não saíram
de unidades de segurança? Quantos foram mortos em “autos de resistência” neste
ano no Brasil? Você sabe? Pois eu não sei, teria que recorrer a São Google pra
te responder... Acontece que cada um desses sujeitos – não os chamarei de
cidadãos, pois tiveram a sua cidadania negada desde sempre – tem nome,
sobrenome, uma mãe, uma história, amigos...
E por que não sabemos quem são? Ora, porque as suas mortes são parte do nosso quotidiano
urbano, porque nos foram descritos como ladrões, malfeitores, marginais... por que
não houve uma voz dissonante pra nos dizer o contrário disso. E por que diabos
com Amarildo foi diferente?
Porque Amarildo não foi só uma vítima, porque Amarildo foi a
gota d’água de um Rio de jaNEURAS onde a polícia se tornou uma facção criminosa
a serviço do Estado. Porque Amarildo foi vitimado num momento em que a grande
impressa não é mais a única detentora da verdade, agora temos um wi-fi na mão e
uma ideia na cabeça... podemos perfeitamente nos comunicar com Rio, Beirute,
Angola, Damasco... sem sairmos do sofá.
Amarildo não é um desaparecido político, é um desaparecido
da política de segurança do Rio de Janeiro, é um desaparecido do sistema
político econômico no qual vivemos, segundo o qual todo o pardo é suspeito,
todo o preto é culpado e todo o pobre é ladrão. Há um rumor de que o corpo de
Amarildo teria sido transportado num caminhão de lixo para um aterro sanitário.
Não há certeza para isso. As ‘otoridadis’ políticas e policiais do RJ vêm tendo
um comportamento vergonhoso nesse caso todo, inventando a cada momento uma
desculpa mais esfarrapada que a outra. A população da Rocinha vem acompanhando,
com dor, com tristeza e com raiva a tudo isso... mas não acompanha calada não,
ela vem se manifestando, vem descendo do morro para o asfalto a fim de manifestar
sua dor, sua ira e esfregando na cara do poder o seu protagonismo político
diante de tudo isso. Não, nunca mais a Rocinha será curral eleitoral, nunca
mais será rebanho. A revolta pode até não ser produtiva, mas, com certeza destruirá
algumas velhas práticas.
E agora, a cereja do bolo:
O palhaço e o papa
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!

A fonte é o
Brasil de Fato: a rede McDonald's será a rede oficial da visita do papa ao Brasil e desenvolverá até lanche
temático chamado “combo peregrino”. Piada pronta. Piada pronta de mau gosto.
Vamos aos fatos?
O tal papa Francisco se pretende progressista, fala em justiça social, em
protagonismo dos países da periferia... e a tal de Jornada Mundial da Juventude
tem como apoiador uma empresa que, sabidamente, vem explorando os jovens
trabalhadores... alguém aí viu uma contradição?
Vamos à Lenda?
Reza a lenda fundadora do Cristianismo que, num dado momento, a divindade única
fecundou uma virgem que deu à luz um moleque de nome Jesus. Ele aprendeu a
beber, deixou o cabelo crescer e caiu na estrada com uns amigos, levando uma mensagem
de paz, amor, tolerância e respeito ao próximo. Foi um sujeito desapegado das
coisas materiais mas, foi também um sujeito que denunciava a injustiça social
na Judeia ocupada pelos romanos. Conta-se que, certa feita, uma galera gritava SEM VANDALISMO enquanto o
cabra metia o pé nas banquinhas dos
vendilhões do templo, botando pra fudê e denunciando o desrespeito daqueles que
profanavam com a sua ganância o templo sagrado de seu suposto Pai divino. Por
conta disso, ele pegou uma cana dura, um tal Pilatos lavou as mãos e o pregaram
num sinal de mais. Iconoclastias à parte, a mensagem do Novo Testamento é uma
mensagem humanista e progressista, não é à toa que meus amigos da Teologia da
Libertação sempre recorrem ao Novo Testamento e aos ensinamentos deste Jesus
libertário.
Voltemos, pois,
ao Rio dos anos 2000? O país vem sendo tomado por manifestações desde o mês de
abril. A Revolta do Busão em Natal, os protestos do MPL (Movimento pelo Passe Livre em São Paulo, no Rio, em Goiânia), o Bloco de Lutas pelo transporte público em Porto Alegre... enfim, o que
começou na indignação pela passagem do busão agregou mais gente, mais causas...
No Rio, tá rolando uma manifestação forte “ fora Cabral”: dia sim, dia não
a galera faz plantão na frente da casa do governador,
faz denúncias sobre a ação das milícias, a truculência da Polícia e... a tragédia que foi a quebra das vidraças de
uma boutique de luxo ... além disso, teve o caso do Amarildo que sumiu. Um sujeito humilde, morador da Rocinha,
foi convidado por PMs a ir até uma UPP. Lá se foi. Entrou na tal UPP, mas nunca
mais saiu. Na Maré, numa ação rebote, pessoas foram mortas: Ademir da Silva Lima, André Gomes de Souza,
Douglas Henrique de Oliveira, Eraldo
Santos da Silva, Fabrício Souza Gomes, Igor Oliveira da Silva, Jonatha Farias
da Silva, José Everton Silva de Oliveira, Lucas Daniel Alcântara Lima, Luiz
Felipe Aniceto de Almeida, Marcos Delefrate, Renato Alexandre Mello da Silva,
Roberto Alves Rodrigues, Valdinete Rodrigues Pereira... e ainda há corpos não
identificados.
E o papa vem ao
Brasil, sob as bênçãos do palhaço?! E quer andar em carro aberto... para quê?
Para justificar a ação truculenta da PM? Para satisfazer a sua vaidade? Ou
seria apenas mais uma ação de merchandising para o McDonald's, essa empresa cujo lanche infeliz engorda e adoece nossas
crianças? Essa empresa que massacra nossos jovens em seus primeiros empregos? Essa
empresa que humilha funcionárias grávidas, deixando-as sem receber salário por
5, 6, 8 meses para forçar que peçam demissão? Essa empresa tão abençoada me
parece mesmo ser muito adequada aos preceitos do tal cabeludo da Judeia!
Não tá
acreditando que o McDonald's é a treva?
Ok, dá uma
olhada nesses links então:
http://www.brasildefato.com.br/node/10843
Charge via Latuff Brasil
Os segredos da cidade
Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!
Um dia qualquer. Problemas pra resolver, horários pra cumprir e lá estou eu andando apressada pelas ruas da minha cidade. Apressada e furiosa, pra ser honesta.
Logo que desembarco no centro da cidade, um sujeito maltrapilho e magro, grita, agita os braços e sapateia na calçada. Exatamente aquilo que eu tinha vontade de fazer. Era só um mendigo, um deserdado, um excluído, um pedinte sem documento, sem dinheiro e sem dignidade. Um ser transparente pra maior parte das pessoas. E lá estava ele a expressar sua raiva ou o seu contentamento – vá lá saber! – da forma que eu, cidadã, trabalhadora, eleitora, consumidora, pagadora de impostos não tive capacidade pra fazer.
Então, fazem com que eu pipoque de guichê em guichê dentro da agência bancária (só porque eu tenho bunda grande e cabelo arrepiado tão pensando que eu sou peteca?) e nada se resolve. Outro problema, outro caminho. Desta vez ouço tambor e chocalho. A curiosidade faz com que eu apresse o passo. Pra minha surpresa é uma cerimônia indígena. Meninos guaranis tocam tambores e chocalhos pra que as meninas dancem seu passo monocórdio e sem graça. Eles tem na faixa dos 14-16 anos, as meninas, que são em quatro, terão, no máximo, 9 anos. Não sei do que se trata, sinto tristeza e alegria ao vê-los dançando em meio a balbúrdia de sexta-feira no centro da cidade.
Mais pressa e mais problemas. Prevendo que meu emputecimento fará com que eu esgane o primeiro que se atravessar na minha frente, no caminho tomo um pouco do meu elixir:
Araqueto. Araqueto é uma arara azul de metro e meio. Mascote de pet shop. Paro pra bater um papo com ele. Arara, arara, arara. Balançamos a cabeça um pro outro, Araqueto abre as asas pra mim e eu abro os braços pra ele. Hei, quer lugar melhor pra creditar um primata do que numa pet shop? Rumo ao ponto de ônibus uma figura longílinea, alta e negra vem em minha direção. Bonito ele. Terá no máximo 25 anos anos, usa uma miniblusa verde musgo (ou seria verde sujo?) e doma sua juba com uma bandana também sujinha. Distribui sorrisos e acenos aos passantes. Muito requebrado, pára na minha frente e, sorrindo, pergunta/afirma: todas as pessoas tem seu valor, né moça?!
Respondo que sim. E sigo meu caminho. Então era isso, ao fim e ao cabo, as grandes revelações estão nas pequenas coisas. E a vida (ou Deus, Alá, Javé, Krshna, seja lá o que for) escolhe os mensageiros mais inusitados para as grandes verdades.




