Postado por: Mundo Raimundo segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ane Brasil escreve para a coluna Soy Contra!


Um dia qualquer. Problemas pra resolver, horários pra cumprir e lá estou eu andando apressada pelas ruas da minha cidade. Apressada e furiosa, pra ser honesta.
Logo que desembarco no centro da cidade, um sujeito maltrapilho e magro, grita, agita os braços e sapateia na calçada. Exatamente aquilo que eu tinha vontade de fazer. Era só um mendigo, um deserdado, um excluído, um pedinte sem documento, sem dinheiro e sem dignidade. Um ser transparente pra maior parte das pessoas. E lá estava ele a expressar sua raiva ou o seu contentamento – vá lá saber! – da forma que eu, cidadã, trabalhadora, eleitora, consumidora, pagadora de impostos não tive capacidade pra fazer.

Então, fazem com que eu pipoque de guichê em guichê dentro da agência bancária (só porque eu tenho bunda grande e cabelo arrepiado tão pensando que eu sou peteca?) e nada se resolve. Outro problema, outro caminho. Desta vez ouço tambor e chocalho. A curiosidade faz com que eu apresse o passo. Pra minha surpresa é uma cerimônia indígena. Meninos guaranis tocam tambores e chocalhos pra que as meninas dancem seu passo monocórdio e sem graça. Eles tem na faixa dos 14-16 anos, as meninas, que são em quatro, terão, no máximo, 9 anos. Não sei do que se trata, sinto tristeza e alegria ao vê-los dançando em meio a balbúrdia de sexta-feira no centro da cidade.

Mais pressa e mais problemas. Prevendo que meu emputecimento fará com que eu esgane o primeiro que se atravessar na minha frente, no caminho tomo um pouco do meu elixir: 
Araqueto. Araqueto é uma arara azul de metro e meio. Mascote de pet shop. Paro pra bater um papo com ele. Arara, arara, arara. Balançamos a cabeça um pro outro, Araqueto abre as asas pra mim e eu abro os braços pra ele. Hei, quer lugar melhor pra creditar um primata do que numa pet shop? Rumo ao ponto de ônibus uma figura longílinea, alta e negra vem em minha direção. Bonito ele. Terá no máximo 25 anos anos, usa uma miniblusa verde musgo (ou seria verde sujo?) e doma sua juba com uma bandana também sujinha. Distribui sorrisos e acenos aos passantes. Muito requebrado, pára na minha frente e, sorrindo, pergunta/afirma: todas as pessoas tem seu valor, né moça?!
Respondo que sim. E sigo meu caminho. Então era isso, ao fim e ao cabo, as grandes revelações estão nas pequenas coisas. E a vida (ou Deus, Alá, Javé, Krshna, seja lá o que for) escolhe os mensageiros mais inusitados para as grandes verdades.

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  1. De vez enquando eu paro pra observar os segredos da cidade também... Mas a lógica do sistema não deixa, porque o dia que todos começarem a descobrir, o sistema vai entrar em colapso...PESSOAS, VAMOS COMEÇAR A OBSERVAR Aêêê!!!!!!! A-TO-RAY SEU TEXTO DIVÃ!!!BJS

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  2. Quem conversa com uma arara tem algo além, no além. =)

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