Mostrando postagens com marcador PolemiCÃO. Mostrar todas as postagens
Os civilizados
Olá, prezadx leitorx
Mudando de saco pra mala: esta é minha introdução no mundo da literatura, cuja obra é assinada pelo pseudônimo de Valentina Guadalajara. Muito obrigada pela leitura deste conto que se chama Os civilizados.
Os civilizados
A tribo vivia em frente ao mar. De um lado e de
outro – porque as noções de esquerda e direita são muito imprecisas - e contra
o mar havia morros. Não eram demasiado altos, no entanto estabeleceu-se por
desempirismo que ali era o fim do mundo.
A gente daquele lugar não precisava cruzar
aqueles morros. Como fariam para levar suas cumbucas, jarros e caldeirões? Como
as crianças poderiam subir a parede verde? Como se protegeriam da potente luz
solar que se escondia ali todos os dias? Acaso morreriam queimados? Com que
objetivo?
Eles observavam o fim do mundo todos os dias, e
não o temiam. O fim do mundo está, como está o fim dos homens e de todas as
coisas.
Enquanto eram levadas a cabo tarefas rotineiras
conforme a vontade de cada um, um menino atravessou a aldeia, correndo e gritando
entre as casinhas de palha. Ele bradava algo incompreensível, nomeava algo que
jamais fora visto antes no mundo. O rebuliço causou espanto e todas as mulheres
se mobilizaram para encontrar aquilo que explodia da boca do menino.
Ele avistara, descendo um dos morros, ferido, sujo
e sedento, um bicho estranho. Esse bicho era branco e não tinha pelos, apenas
alguns que saiam de sua cabeça como fogo. O bicho vinha cambaleando, lá de onde
termina tudo.
Uma vez capturado pelas mulheres, o animal
raríssimo desmaiou.
Após dias e dias de chás, poções e cuidados, o
homem abriu os olhos. Enquanto era observado por um grupo de crianças mudas e
curiosas, contara que vinha de longe, que o mundo era muito extenso, que ia
muito além daqueles morros verdes. As crianças correram para chamar os adultos,
afinal alguém mais deveria ser testemunha de tão exótico relato.
Com a chegada das anciãs e anciãos, e recobrando
a consciência completa, perguntara por estranhos trapos que trazia sobre seu
corpo. Quando se formou o burburinho e não houve resposta alguma, apenas olhos
arregalados a observá-lo, ficou um pouco envergonhado e irritado. Defendia-se
de algo, foi a conclusão a que chegaram as sábias.
Com o passar dos dias, animou-se a contar as
novidades do lado de lá. Dissera que do outro lado existia algo chamado
“família”, e que cada mulher, cada homem e seus filhos formavam um pequeno clã.
Também relatava a existência de frutos diferentes, e que o ar também era outro.
A tribo, escutando tudo atentamente, estranhou
muito toda a conversa do bicho branco. Primeiro perguntaram o porquê de ele ter
saído de onde vivia para descobrir algo que não pode usar. Segundo o bicho, o
mundo era vasto e grande. Sendo assim, a tribo não via necessidade de ir a
outro lugar. Se o mundo fosse pequeno demais, se o espaço não fosse suficiente
para morar, plantar, viver ali, nesse caso seria útil e necessário, do
contrário não. Essa lógica lhes pareceu muito estranha e contraditória.
Outro mistério era a preocupação com a tal “roupa”
e a moléstia que o homem sentia de não tê-la consigo. No mundo, nada estava com
ninguém, as coisas iam mudando, dali pra cá, de cá pra lá. Contudo o bicho disse
que as roupas, lá de onde ele vinha, eram necessárias por causa do ar, era
outro, fazia frio.
- O que significa “frio”?
- Um ar que dói quando bate na pele. Dói tanto
que precisamos nos cobrir.
- Mas dói por quê? É como quando há muito vento
e a areia bate na pele?
- É como quando há vento, mas vento mais frio.
- O que significa “frio”?
O bicho explicou o que era e como funcionava uma
“família”.
- Se há apenas um homem e uma mulher e seus
filhos, como saber se os filhos são daquele homem?
- Por que a mulher e o homem apenas têm relações
entre si, é proibido que tenham com outra pessoa. Ter relações com outras
pessoas é uma atitude reprovável e castigada.
- Mas o que são “relações”?
- Quando o homem coloca seu palito dentro da
mulher, dentro daquele buraco, assim embaixo, por onde saem os bebês.
- As mulheres não podem nunca tocar em outros
homens?
- Podem tocar desde que não seja com função de
ter relações, podem abraçar, e podem beijar apenas no rosto. Ela apenas pode
ter relações com seu marido, e os dois podem abraçar e beijar livremente apenas
seus filhos.
- E qual é a diferença entre “ter relações”, “
beijar” e “abraçar”?
O bicho branco tentava explicar todas as nuances
do contato físico e os diferentes tipos de abraços e beijos. A tribo entendeu,
mas achou tão aleatório e complexo, e, sobretudo, tão desnecessário, que
resolveu mudar de assunto.
- E se uma mulher e um homem tiverem muitos
filhos, quem poderá cuidar de tantos filhos sozinhos?
Foi o forasteiro que não entendeu a pergunta.
Ele nunca havia pensado que todos podiam cuidar dos filhos uns dos outros e que
isso aliviaria o trabalho dos adultos, bem como as crianças teriam atenção e
cuidado por mais tempo. Entretanto, o bicho dava valor demais àquilo que ele
pensava novo, não estava interessado em escutar.
Ao fim de uma semana de tanto relato, o bicho
branco resolveu continuar encontrando mais mundo, e como considerava que
naquela tribo havia bons ouvintes, convidou alguns para participarem da sua
aventura.
Seu pedido soava quase tão ridículo quanto tudo
que havia contado sobre o lugar de onde viera. Apesar de todas as diferenças incompreensíveis,
absolutamente todos os bichos brancos se tocavam, tinham relações, se amavam,
caçavam, cozinhavam, tinham bebês. Todos eles trabalhavam e descansavam,
festejavam e lamentavam. Sem exceção compartilhavam ideias à beira do fogo,
contavam histórias e repartiam uma bebida. Apesar do vento e da comida, eram
muito parecidos ali no mundo e no mundo muito maior. Todos bichos, uns marrons,
outros brancos.
A tribo sabia que todas as coisas são
desprovidas de sentido. Qual é a razão do mar? É estar ali, existindo. A razão
de uma árvore era crescer, dar frutos ou não, e talvez um dia morrer ou ser
arrancada pelo vento, que sempre volta e volta. O que faz o mar, a árvore e o
vento bonitos ou feios, bons ou maus, somos nós. Tudo é igual aqui que em outro
lado.
Para o bicho branco não restava outro remédio
que continuar sua viagem sozinho. Na manhã seguinte ele se foi, enrolado em uma
folha de bananeira, sob o olhar compadecido da tribo. Lá vai ele levando sua
chama na cabeça. A chama de buscar mais mundo que não viver.
Valentina Guadalajara
Espelhos
Olá, prezadx leitorx
Mudando de saco pra mala: esta é minha introdução no mundo da literatura, cuja obra é assinada pelo pseudônimo de Valentina Guadalajara. Muito obrigada pela leitura deste conto que se chama Espelhos.
Espelhos
Entro
no quarto, e desde a porta o vejo deitado ali na cama, tão distraído com seus
brinquedos. As bochechas rosadas, a roupa que comprei. Percebe a minha
presença, candidamente ri. Faz-me um gesto, creio que me chama para que me
aproxime. Deito-me ao seu lado. Estende-me os braços e o pego, o protejo, o
cuido. Sinto a felicidade de seu corpo, sua inquietação. Tenho que vestir-me,
abro o armário, ele vem engatinhando atrás de mim. Me segura pelas pernas, me
chama. Vejo que ele precisa de mim.
Sentado
do lado esquerdo da cama, de frente para o guarda-roupa, com ela em meus braços.
Acaricio sua pele delicada. Os olhinhos quase se fechando, de repente um
sorriso. Olho-me no espelho do roupeiro, e a ela também, tão pequenina, tão
indefesa. Levanto-me e caminho pelo quarto. Dou a volta na cama e paro em
frente à janela, bailando com ela. Olhamos os dois este futuro que nos é
desafiador e estimulante. Canto pra ela. Seu corpinho tão leve, a embalo. Contra
meu corpo a aperto, um perfume adocicado, fecho os olhos. Abraço-a, beijo-a,
admiro-a.
Quando
Maria e João se conheceram, foram morar juntos. Eles preencheram alguns espaços
dentro do outro. Na sua intimidade, eles brincam de ser aquilo que lhes faltava.
Valentina Guadalajara
Norma e Clara
Olá, prezadx leitorx
Mudando de saco pra mala: esta é minha introdução no mundo da literatura, cuja obra é assinada pelo pseudônimo de Valentina Guadalajara. Muito obrigada pela leitura deste conto que se chama Norma e Clara.
Norma e
Clara
Era uma tarde ensolarada e agradável. Clara
observava atentamente a vegetação do bosque, mal podia crer que há alguns meses
aquelas árvores estiveram completamente desnudas e estéreis, e antes disso, com
as folhas amarelas, e ainda antes haviam estado grandiosas e cheias de
imponentes flores, da mesma maneira como as estava vendo agora.
Clara fixou sua visão em uma pequena árvore, uma
árvore menina, árvore criança. Encontrava-se tão exposta, no meio de muitas outras
grandes árvores. Parecia tão frágil, desprotegida, com algumas folhas um pouco
murchas. Clara conhecia a possibilidade que a pequena morresse, mas sabia que
não. Sabia que esse arbustinho ia crescer e crescer, até vê-la de cima. Clara
sentada, olhos nos olhos com a planta, agora elas tinham a mesma altura, a
mesma solidão e o mesmo desamparo. Ambas descolocadas no mundo. E se Clara
talhasse seu nome no fino tronquinho? Certamente a machucaria. Mas, “e se eu
escrevesse?”, pensou. A arvorezinha iria crescer, porém a marca estaria sempre
ali, a dez centímetros do chão. Uma dor registrada a um palmo de distância do
solo. Essa imagem a deixou melancólica: “Que coisa, as dores estão sempre ali
onde foi aberta a chaga. A gente esquece só porque cresce pra cima.”
Outros pensamentos e memórias foram visitando a
mente de Clara enquanto esperava Norma. Depois de vinte anos, esta iria voltar
à sua cidade natal, da qual havia fugido para casar-se com alguém de fora, para
tentar a carreira de atriz na capital, para ter um bebê na casa de alguma tia
distante, para escapar da polícia ou talvez para distanciar-se da sua família
por algum incidente sinistro.
No dia quatro de fevereiro de 1970, um dia antes
da fuga, Norma e Clara, fizeram um piquenique na beira da cachoeira. Norma descobriu,
escondido entre as folhagens, um pedaço de arco-íris. Tinha o tamanho de um
cartão postal. Estava um pouco seco, levemente desbotado e mofado em uma das
pontas, mas sem dúvida era um arco-íris. As meninas estranharam que nenhum
desenho se parecia de fato ao verdadeiro, porque as gravuras traziam sempre uma
linha separando as cores umas das outras, e o autêntico apresentava-se em degradê. O verdadeiro parecia muito mais
natural e singelo.
Norma insistiu que Clara escondesse o objeto em
sua casa como o mais alto símbolo da sua amizade e confiança. Norma não soube
mensurar o que havia descoberto. Milhares de pensamentos tenebrosos infiltraram-se
em sua cabeça. Imaginava com horror que sua mãe, mulher luxuriosa e vulgar, poderia
exibi-lo obscenamente, o que seria um espetáculo vexatório e provocaria a repugnância
e o definitivo rechaço na população da pequena cidade onde viviam. Também temia
que seu pai, homem extremamente severo, ao meio-dia depois da missa, expusesse a
filha junto ao pedaço de arco-íris em praça pública, difamando-a, incitando na
multidão brados de insultos violentos e todo o tipo de maltrato, consentindo e
fomentando assim, a mais ultrajante das humilhações. Vergonha coletiva ou
individual, era, portanto, perigosíssimo manter em seu poder o modesto pedacinho.
Pensando na amiga, Clara aceitou preservá-lo e mantê-lo distante da ciência pública.
No dia seguinte, Clara tomou conhecimento de que
a amiga havia desaparecido sem explicações nem despedidas. Sentiu-se triste,
traída, desolada. Então colocou aquele signo de afeto numa caixinha adornada e,
desde então, contemplava-o sempre que seu coração se inflamava de saudades. Um
arco-íris metáfora, Norma.
Agora, depois de tantos anos, Norma telefona e avisa
que em dois dias estará voltando à cidade natal. Clara, como quem vê pela
primeira vez o mar, delira com o encontro. Marcaram naquele lugar onde haviam
descoberto o arco-íris anos atrás. Conversaram sobre como havia sido a vida de
cada uma e finalmente chegaram ao tema da desaparição de Norma. Ela confessa que
fugiu por pura covardia de havê-lo descoberto, já que, com simplesmente
imaginar as consequências de estar associada a esse belo pedaço de cores, seu espírito
se enchia de espanto. Norma perguntou se Clara ainda guardava o objeto, e Clara
lhe contou-lhe toda a história.
“Depois de oito anos guardando o arco-íris,
minha irmã acabou por descobrir o segredo. Tomada pela ira, gritando e babando,
ameaçou-me de mostrar a todos o que eu guardava na minha antiga e querida
caixinha enfeitada. Frente ao dilema e a vergonha, coloquei aquele pedaço de arco-íris,
já completamente seco e esfarelento, dentro da boca e o devorei como se há
muito não comesse. Eu não tive escolha, precisava ocultar a prova, mas ao mesmo
tempo guardá-la comigo. Neste momento não havia outra opção para mim.
Depois desse dia, tossi sem cessar por seis
meses. Tossi tanto que chorei, chorei muito. Durante este tempo, parava de
tossir e chorar apenas três horas por dia para dormir. Você não sabe o que é
tossir e chorar por meses, você fugiu, você me abandonou. Depois da tosse,
vieram outros sintomas. Meus dedos, que eram tão longilíneos, delicados e
hábeis, ficaram roliços e pequenos. Minha voz, antes aguda, ficou rouca. Minhas
atitudes, antes de mulher tão ousada e atrevida, foram retraindo-se, e hoje sou
uma pessoa muito tímida. O mais grave começou a acontecer quando um dia vim
aqui, exatamente aqui, porque precisava chorar. A partir desse dia, todas as
vezes que chorava ou suava, mudava de cor. Eu já não podia mais negar nada.
Perdi o emprego e fui expulsa de casa. Eu provocava aversão, assim me disseram.
Algumas pessoas me recomendaram trabalhar no circo. Você pode imaginar o que se
sente quando alguém diz pra você ir trabalhar no circo, Norma?! Desde esse dia
em que mudei de cor pela primeira vez, fui vítima de uma avalanche de
comentários, de risos e da ojeriza de toda a gente. E você fugiu, Norma, você
me deixou aqui pra pagar esse custo sozinha!” – desabafou Clara.
Já completamente alaranjada, disse que por todos
esses anos guardou o arco-íris dentro dela, que poderia ter-se desfeito do
incômodo. No entanto ela nunca foi capaz de separar-se desse símbolo, emblema de
um sentimento tão profundo que ela nunca havia esquecido. Desta forma, honrou
sua promessa à especial amiga e bravamente sustentou esse segredo durante vinte
anos. Porém, agora, com Norma de volta, Clara já podia dividir com ela sua
inquietação.
Ao final de seu depoimento repleto de mágoa, Clara
abraçou fortemente Norma, beijou-a e vomitou uma parte do arco-íris em sua boca
sem que Norma pudesse reagir. Agora Norma, vermelhecida, finalmente irá
compartilhar e dividir aquilo que sempre foi dela também.
Valentina Guadalajara

